Camila Pimenta: o que a arquitetura dos países da Copa revela sobre cada cultura

Dos grandes vãos brasileiros ao rigor construtivo europeu, cada escolha arquitetônica traduz um modo de viver.

Para a arquiteta Camila Pimenta, cada cidade visitada durante a Copa do Mundo 2026 conta uma história por meio de seus edifícios, de seus interiores e da forma como as pessoas vivem os espaços.

Durante o torneio, milhões de pessoas acompanham seleções, estádios e grandes jogos. Mas, para quem observa a arquitetura, o evento também revela outra competição silenciosa: a forma como cada país expressa sua identidade por meio dos espaços que constrói.

Para a arquiteta Camila Pimenta, viajar por diferentes países é compreender que a arquitetura funciona como uma linguagem capaz de traduzir valores, cultura e comportamento.

“A arquitetura é uma das formas mais completas de entender uma sociedade. Ela mostra como um povo ocupa o território, como valoriza a convivência, como se relaciona com a natureza e até como percebe o tempo”.

Segundo a arquiteta, esse olhar vai muito além dos monumentos conhecidos. Está presente na maneira como as cidades se organizam, nas proporções dos edifícios, na escolha dos materiais e na relação entre arquitetura e paisagem.

“Cada país desenvolveu soluções próprias ao longo da história. Não existe uma arquitetura universal. Existe uma resposta construída a partir do clima, da cultura e da forma como cada sociedade escolheu viver.”

Entre os países que tradicionalmente despertam interesse pela arquitetura, Camila destaca características bastante distintas.

“O Brasil possui uma arquitetura extremamente generosa, que integra paisagem, luz natural e convivência. A França impressiona pelo domínio das proporções. A Espanha demonstra enorme inteligência no uso da matéria e da luz. A Inglaterra construiu uma tradição baseada na continuidade e na memória. Já Portugal talvez seja hoje uma das maiores referências em equilíbrio entre patrimônio e contemporaneidade”.

Essa identidade também se estende aos interiores. Para Camila, arquitetura e design de interiores não devem ser compreendidos como disciplinas independentes.

“O interior revela o modo de viver. É nele que aparecem os hábitos da família, a maneira de receber convidados, os rituais cotidianos e aquilo que realmente tem valor para quem mora na casa”.

Na visão da arquiteta, um dos maiores equívocos é tentar importar estilos prontos.

“O papel da arquitetura não é reproduzir uma estética estrangeira. É compreender por que determinadas soluções funcionam em cada lugar e reinterpretá-las de acordo com a realidade brasileira”.

Essa leitura também influencia a forma como ela enxerga o mercado internacional. Para Camila, enquanto a tradição europeia construiu uma cultura baseada na permanência, na manufatura e na valorização do patrimônio, as Américas desenvolveram uma arquitetura mais aberta à inovação, à tecnologia e às novas formas de ocupar os espaços.

“Os projetos mais consistentes conseguem reunir essas duas qualidades. Respeitam a construção do tempo, mas respondem às necessidades contemporâneas de forma inteligente.”

Entre os materiais que vêm ganhando protagonismo mundial, a arquiteta observa um retorno à autenticidade.

“Existe uma valorização crescente das pedras naturais, das madeiras com acabamento menos industrializado, das texturas artesanais e de materiais que preservam suas características originais. Mais do que seguir tendências, existe um desejo por espaços que envelheçam bem”.

Ao destacar uma referência internacional em arquitetura contemporânea, Camila escolhe Portugal.

“Portugal demonstra que uma arquitetura relevante não depende de excessos. Sua força está na precisão das proporções, no domínio da luz natural, na relação com a paisagem e na qualidade construtiva. É uma arquitetura que permanece atual porque nasce de fundamentos muito sólidos”.

Para a arquiteta, eventos globais como a Copa do Mundo acabam ampliando o interesse das pessoas pela arquitetura de maneira espontânea.

“Quando acompanhamos um país durante um grande evento, também observamos suas cidades, seus espaços públicos, seus hotéis, seus museus e a forma como aquela sociedade recebe o mundo. A arquitetura passa a contar essa história de maneira muito natural”.

Ao final, Camila Pimenta resume aquilo que considera o maior ensinamento das viagens.

“Conhecer a arquitetura de um país é compreender muito mais do que seus edifícios. É entender como aquele povo escolheu viver. E talvez seja justamente por isso que a arquitetura continue sendo uma das expressões culturais mais completas que existem”.

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